
Abaixo da linha do nariz também tem história
Somos vítimas, sem proteção, dos que não conhecem a história do seu povo. A cena que segue corresponde ao ocorrido recentemente, durante uma audiência em que se discutia a utilização do período de atividade rural anterior aos 12 anos de idade.
A história é de pessoa que perdera o pai ainda na infância, e que tinha três ou quatro irmãos menores. Portanto, ela e sua mãe viúva, continuaram a ser o que eram, e ainda por cima passaram a ser o pai de família. Cuidavam da casa, dos menores e das atividades rurais para a sobrevivência.
No curso do depoimento de uma das testemunhas, senhora já idosa, o Procurador Federal, visivelmente assenhorado de uma realidade que ele não conhecia, mas pensava que sim, manifestou júbilo: afinal, como é que a pré-adolescente poderia trabalhar na roça, se havia o serviço da casa e o cuidado com os irmãos menores e os estudos? E tentou enredar a senhorinha, que ao depor contava a sua própria história, a história do seu advogado, e a história da autora da demanda, nos seus (nossos) primeiros anos de vida.
E veio a pergunta, feita como se fosse o ?tiro de misericórdia? na pretensão da segurada: - Como é que a autora trabalhava na roça, se tinha três ou quatro irmãos menores para cuidar? Seguiu-se a resposta magistral: - Essa gente de hoje em dia, não é mais gente como nós era. A gente botava os nenê dentro da carroça, em cima de um pano, e levava junto.
Temos que acrescentar que ?essa gente de hoje em dia?, muitas vezes pretenciosa e desumana, não conhece a história do seu povo, não a viveu e, estranhamente, não manifesta o menor desejo de conhecê-la. Suas mães, muito provavelmente não saíram às ruas, a protestar para a conquista do direito de serem oficialmente agricultoras, e de terem documentos da atividade em seu nome.
Mas, ?essa gente de hoje em dia? se encastela sobre a burocracia e a letra fria da lei, como se quem a fez tivesse noção real do que fazia. É o juiz que tem obrigação de ser inteligente e perspicaz, que deve enquadrar os fatos na lei para o bem comum, servindo-se dela como instrumento de justiça. Em vez disso, o que se vê seguidamente é a sonegação de direitos fundamentais em cima de supostas dúvidas, dúvidas que não têm os que conhecem algo além do borralho (não raro luxuoso e bem provido) de onde vieram.
Pobre povo brasileiro, pois se não bastasse tudo o que vem ocorrendo, precisa ver seu passado inscrito na história ser contestado por quem não conhece a história. Ou por quem manifesta dúvida sobre fatos óbvios, históricos e grandiosos, duvidando deles pela preguiça de buscar as próprias raízes. Ou as estariam negando!
A história está também abaixo da linha do nariz, por este Rio Grande afora, bastando que, em ato de humildade, todos baixem o nariz e se desencastelem. Ou continuarão injustos e vilipendiando a história do seu próprio povo.
Somos vítimas de quem não conhece a própria história, e que, montados na ignorância acerca de fatos devidamente registrados nos anais sociais, assumem posições que beiram o ridículo."