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As pessoas que padecem de Depressão, Transtorno Afetivo Bipolar, Ansiedade, Pânico, Síndrome de Burnout etc. sabem, elas, seus familiares e amigos, o fardo pesado que carregam. Com atendimento médico precário, eis que poucas têm acesso a atendimento especializado e psicoterapia adequada, essas pessoas tendem a aprofundar cada vez mais o sofrimento, chegando à cronificação dos quadros. Ou seja, de tanto sofrer, de tanto serem tratadas superficialmente e sem constância, terminam por não ver saída para sua situação.


O INSS, mal aparelhado no seu quadro de peritos, analisa os quadros psiquiátricos como se fossem quadros físicos (que também não analisa adequadamente), e confunde a estabilidade patológica com recuperação da capacidade. A estabilidade patológica se atinge quanto as medicações ?emparelham? o comportamento da pessoa, sem devolver-lhes o ânimo, o entusiasmo pela vida e a capacidade de reação. Como a medicação utilizada embota as reações das pessoas, mascarando seus sentimentos sem sequer considerar os gatilhos estressores (as causas para as crises), peritos do INSS e peritos judiciais mais parecem que avaliam máquinas e equipamentos. E não seres humanos.


Tal viés de avaliação tem enorme componente ideológico e de rasa percepção dos fatos humanos e da vida holística, pois exigem de quem já não domina as próprias reações que ?saia do buraco?, alegando faltar-lhe disposição para tanto. Até que a urucubaca lhes bata à porta, ou arranhem os garrões de seus familiares, pois daí em diante tudo muda...


É triste, mas precisa ser dito que o conhecimento teórico não prescinde da sensibilidade, da amplitude dos conceitos sociais e ? acima de tudo ? da vida em sociedade. Não na sociedade ?qualificada?, das relações das elites onde os trabalhadores em geral não rodopiam com seus problemas típicos dos pobres. Falamos do chão de fábrica, da vida nas vilas e bairros, das relações conflituadas de um ambiente de trabalho que não raro é motivado pelas próprias empresas.


Não há nada de inteligente em devolver um ser humano, depois de três, quatro ou dez anos de afastamento por quadros psiquiátricos, para o mercado de trabalho, sem sequer lhe garantir apoio e proteção (reabilitação profissional). Mas há um grave e abissal componente ideológico nestas avaliações, de uma casta de profissionais e governantes que, desconhecendo a vida real, honram-se em criticar seus semelhantes e em condenar sua suposta falta de vontade para superar os problemas da vida.


Estamos, há bom tempo, cronometrando as avaliações psiquiátricas realizadas junto à Justiça Federal (Perícias Judiciais), que vêm sendo realizadas em exames de 9 a 11 minutos (descontado o tempo gasto para a pessoa entrar e sair da salda das perícias). Creiam, são gastos de 9 a 11 minutos para ler documentos médicos e avaliar o que vai no íntimo da pessoa, as causas que a levaram ao padecimento, e as condições que encontrarão ao retornar ao mercado de trabalho.


Sequer se lhes pergunta que condições sociais encontrarão ao retornar ao mercado de trabalho. Ora, danem-se os seres humanos, danem-se os nossos semelhantes!


Não somos profetas do Antigo Testamento, embora as elites burocráticas e judiciais sejam quase como que Faraós. Mas basta observar a Vida para que se perceba que ela corrige, propicia o arrependimento e pune com uma severidade tal que, se os injustiçadores o soubessem, imediatamente se arrependeriam. Enquanto isso, continua-se a fazer de conta que se avaliam as condições pessoais dos seres humanos que têm que viver do suor do próprio rosto, mas não o conseguem.